Bets e adolescência: como conversar com os filhos sobre dinheiro fácil, influência digital e responsabilidade
- ANDREIA MORAES
- 9 de jul.
- 4 min de leitura
Nos últimos anos, as casas de aposta passaram a ocupar um espaço cada vez maior no cotidiano das famílias. Elas aparecem nos intervalos dos jogos, nas redes sociais, nos vídeos de influenciadores, nos cortes de YouTube, nos grupos de WhatsApp e até nas conversas informais entre adultos. Muitas vezes, esse conteúdo chega disfarçado de brincadeira, diversão ou oportunidade. A promessa parece simples: apostar pouco, ganhar rápido e participar de algo que “todo mundo está fazendo”. Mas, quando olhamos com mais atenção, percebemos que essa mensagem pode chegar de forma muito sensível para crianças e adolescentes.
A adolescência é uma fase marcada por descobertas, desejo de pertencimento, comparação, busca por autonomia e maior exposição às influências externas. Quando um influenciador apresenta a aposta como algo fácil, divertido e lucrativo, isso pode despertar no jovem a ideia de que existe um caminho rápido para conseguir dinheiro, reconhecimento ou status. E é justamente aí que os pais precisam estar atentos.

Um levantamento do Banco Central estimou que cerca de 24 milhões de pessoas físicas participaram de jogos de azar e apostas online no período analisado. O estudo também apontou que, em 2024, as transferências mensais para empresas de apostas variaram entre R$ 18 bilhões e R$ 21 bilhões. A maior concentração de apostadores estava entre jovens de 20 a 30 anos. Outro dado importante vem do DataSenado: 13% dos brasileiros com 16 anos ou mais declararam ter participado de bets nos 30 dias anteriores à pesquisa, o que representa cerca de 22,13 milhões de pessoas. Entre os apostadores, 58% tinham dívidas em atraso há mais de 90 dias. Esses números mostram que não estamos falando apenas de uma “moda da internet”. Estamos falando de um fenômeno que atravessa a vida financeira, emocional e familiar de muitas pessoas.
Para crianças e adolescentes, a forma como a aposta aparece importa muito. Quando ela é apresentada como brincadeira, sem que se fale sobre perda, risco, endividamento e manipulação publicitária, o jovem pode começar a construir uma relação distorcida com dinheiro e responsabilidade. A aposta deixa de parecer uma escolha de risco e passa a parecer uma forma comum de diversão. E, muitas vezes, isso começa dentro da própria família. Um adulto que aposta “só por diversão”, que comenta ganhos com entusiasmo, que minimiza perdas ou que trata o dinheiro apostado como algo sem importância, também comunica algo. Crianças e adolescentes observam. Eles escutam a entonação, percebem o lugar que aquilo ocupa na rotina e aprendem, mesmo quando ninguém está tentando ensinar.

Por isso, talvez a pergunta não seja apenas: “meu filho está apostando?”. A pergunta pode ser mais ampla: “que relação com dinheiro, risco, frustração e limite estamos ajudando nossos filhos a construir?”. Conversar sobre bets não precisa ser uma conversa pesada ou acusatória. Também não precisa começar com proibição ou sermão. Pode começar com curiosidade e presença. Os pais podem perguntar: “Você já viu esse tipo de propaganda?”, “O que você acha quando um influenciador fala que ganhou dinheiro apostando?”, “Você conhece alguém que aposta?”, “Você acha que essas pessoas mostram também quando perdem?”. Essas perguntas ajudam a abrir diálogo. E, muitas vezes, antes de orientar, é preciso entender como esse conteúdo já está chegando ao adolescente.

Também é importante explicar que influenciadores nem sempre estão apenas “dando uma dica”. Muitas vezes, há interesses comerciais por trás da divulgação. Aquilo que aparece como espontâneo pode ser publicidade. Aquilo que parece oportunidade pode ser estratégia de convencimento. E aquilo que parece diversão pode gerar sofrimento, dívida e conflitos familiares. A própria regulação publicitária brasileira reconhece que crianças e adolescentes precisam de proteção nesse contexto.
As regras do CONAR para publicidade de apostas preveem cuidados para que esse tipo de anúncio não seja direcionado a menores de 18 anos e exigem sinalização de restrição etária. Mas a proteção não pode depender apenas da lei, da plataforma ou da propaganda. Ela também passa pela mediação familiar. Pais e cuidadores não conseguem controlar tudo o que aparece nas telas, mas podem construir um espaço de conversa. Podem ajudar os filhos a diferenciar jogo, brincadeira e aposta com dinheiro. Podem falar sobre frustração, limite, consumo, desejo e responsabilidade financeira. Podem mostrar que dinheiro fácil, quando aparece como promessa, quase sempre esconde riscos que não estão sendo ditos.

O mais importante é não tratar o tema como algo distante da realidade dos filhos. Mesmo que uma criança ou adolescente ainda não aposte, ele pode estar sendo exposto diariamente a uma cultura que normaliza a aposta, romantiza o ganho e silencia a perda. Quando a família conversa, observa e nomeia o que está acontecendo, ela oferece uma referência. E essa referência é fundamental para que crianças e adolescentes não fiquem sozinhos diante de mensagens tão sedutoras. Falar sobre bets em casa é falar sobre cuidado. É falar sobre saúde emocional, educação financeira, influência digital e responsabilidade. É ajudar os filhos a perceberem que nem tudo que parece diversão é inofensivo, e nem tudo que promete ganho rápido merece confiança.
Mais do que vigiar, é preciso estar presente. Porque, quando a aposta chega como brincadeira, cabe aos adultos ajudarem crianças e adolescentes a enxergar aquilo que a propaganda nem sempre mostra: o risco, a perda, a influência e as consequências que podem atravessar toda uma família. * Imagens foram geradas por IA* Referencias: BANCO CENTRAL DO BRASIL. Análise técnica sobre o mercado de apostas online no Brasil e o perfil dos apostadores. Brasília: Banco Central do Brasil, 2024. Disponível em: site oficial do Banco Central do Brasil.
DATASENADO. Mais de 22 milhões de pessoas apostaram nas “bets” no último mês, revela DataSenado. Senado Federal, 1 out. 2024. Disponível em: Agência Senado.
CONAR. Regras para a publicidade de apostas. Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária, 2023.
CONAR. Anexo X - Publicidade de Apostas. Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária, dez. 2023.




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